Quarta, 24 de Julho de 2024
Saúde COLUNA

Transtorno Opositor Desafiador (TOD) na Primeira Infância: um relato materno para compreensão e apoio

Leia na coluna de Keyla Ferrari sua jornada pessoal ao lidar com o TOD em seu filho mais novo, desde os primeiros sinais até a busca por respostas e apoio

15/05/2024 às 12h43 Atualizada em 28/05/2024 às 11h49
Por: Keyla Ferrari Fonte: Keyla Ferrari
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É essencial que pais e educadores estejam cientes das características do TOD e sejam capazes de diferenciar entre comportamento desafiador e simples indisciplina. Imagem: Freepik
É essencial que pais e educadores estejam cientes das características do TOD e sejam capazes de diferenciar entre comportamento desafiador e simples indisciplina. Imagem: Freepik

 

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Percebi que meu filho mais novo, com cerca de dois anos de idade, começou a apresentar comportamentos diferentes. Nas fotos, ele sempre parecia emburrado, nos almoços em família recusava-se a brincar ou comer, e muitas vezes não conseguíamos entender exatamente o motivo dessa mudança de humor tão repentina. Aos três anos, era comum ser chamada quase diariamente na escola, pois ele agredia uma coleguinha e não obedecia à professora. Em uma das reuniões, a professora chegou a sugerir que eu deveria "exorcizar" meu filho.

Para uma mãe que trabalha com educação especial e inclusão, é extremamente desafiador não compreender o que está acontecendo com seu filho, e a primeira reação é, muitas vezes, se culpar. Eu me questionava: o que estou fazendo de errado? Será que tenho trabalhado demais? Não sou agressiva em casa, então o que pode estar acontecendo?

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Foram muitas conversas, tentativas de diálogos lúdicos, castigos, como privá-lo de fazer as coisas que gostava, o que na prática não surtia efeito. As broncas pareciam apenas piorar a situação.

Com o convite para que meu filho se retirasse da primeira escola, dei início a uma intensa jornada de pesquisa sobre seus comportamentos. Como mãe, eu me via constantemente questionando: "Quando bebê, ele alcançou todos os marcos de desenvolvimento normalmente, fez contato visual e demonstrou ser uma criança afetiva e inteligente. Então, o que está acontecendo? Por que tantos rompantes agressivos? Por que ele tem dificuldade em brincar com outras crianças do condomínio?"

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Uma das questões que mais me intrigavam era a discrepância entre suas habilidades sociais e suas dificuldades em interagir com seus colegas. Embora ele demonstrasse afeto e inteligência em casa, parecia encontrar barreiras na escola e no convívio com outras crianças. Essa desconexão entre o que eu observava em casa e o que era relatado pela escola era desconcertante e me impulsionava a buscar respostas. Além disso, os rompantes agressivos de meu filho também demandavam uma compreensão mais profunda. Eu me via confrontada com a complexidade de lidar com suas explosões emocionais, buscando maneiras de ajudá-lo a expressar suas frustrações de forma mais construtiva.

Eu ansiava por vê-lo interagir e compartilhar momentos de diversão com outras crianças, sem acabar em brigas e choro, mas parecia que ele enfrentava obstáculos nesse aspecto. Essa ausência de conexões sociais fora do ambiente familiar destacava a importância de proporcionar oportunidades de socialização e inclusão em diferentes contextos.

Durante um dos momentos mais difíceis da minha vida, quando eu estava lutando contra o câncer e passando por sessões de quimioterapia, recebi uma notícia devastadora: meu filho foi convidado a se retirar da segunda escola, por conta de seu jeito "esquentadinho de ser" e então ele desafiava a professora e agredia verbal e fisicamente vários coleguinhas . Esse acontecimento não apenas abalou a autoestima dele, mas também a minha. Como mãe, me senti impotente e frustrada diante da situação. No entanto, em meio à adversidade, percebi que precisava agir e buscar soluções mais efetivas.

Foi então, quando meu filho completou cinco anos de idade, que finalmente encontrei uma psicóloga competente e uma escola acolhedora. Realizamos uma avaliação neuropsicológica, e os resultados confirmaram o diagnóstico que já suspeitávamos: Transtorno Opositor-Desafiador (TOD) e Transtorno do Déficit de Atenção (TDA).

Essa descoberta foi um ponto de virada em nossas vidas. A partir desse momento, começamos a entender melhor as necessidades do meu filho, pois mesmo sendo eu educadora, no papel de mãe meus sentimentos e ações eram emocionais e este diagnóstico nos fez buscar formas de apoiá-lo da melhor maneira possível. Foi um processo longo e desafiador.

Felizmente, encontramos apoio e compreensão na psicóloga que nos acompanhou nesse processo. Com suas orientações e estratégias, aprendemos a lidar com os desafios comportamentais e emocionais enfrentados por meu filho. Além disso, a escola foi acolhedora, proporcionou um ambiente inclusivo e empático, onde meu filho pôde se sentir seguro e valorizado. Recorremos ao apoio de um psiquiatra infantil embora eu sempre ter sido contra medicação, entendi que naquele momento ele precisava passar por este processo medicamentoso o que, de fato, melhorou muito a agressividade, com apenas 0,25 de uma dose realmente pequena para o caso dele.  Atualmente, ele tem quinze anos, um adolescente estudioso, amoroso, campeão de xadrez nacional e agora está se preparando para competições internacionais.

Sim, é possível ajudar uma criança com TOD, é possível esta criança ter sucesso.  Como mãe e educadora, gostaria de compartilhar minha experiência e oferecer algumas dicas pedagógicas para pais e professores que enfrentam situações semelhantes, por isto escrevi um livro infantil até para auxiliar os próprios colegas da sala de aula a identificarem e lidarem com seus amiguinhos considerados os mais difíceis da sala.

A pouca informação sobre transtornos escolares por parte de familiares e profissionais da educação pode fazer com que as crianças que possuem estes diagnósticos sejam mal compreendidas, vistas como indisciplinadas, desobedientes, agressivas, sem limites, rebeldes, preguiçosas, ou até consideradas com déficits cognitivos.  Por outro lado, se conhecido o transtorno/ dificuldade e adequadamente acompanhado na sua especificidade, respeitando a singularidade e história de vida do educando, que possui as características ou a confirmação de um diagnóstico, será possível auxiliá-los a levar uma vida com melhor qualidade e mais alegre, principalmente se considerarmos os contextos sociais e educativos.

Segue abaixo alguns conceitos e dicas pedagógicas:

 

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O Que é o Transtorno Opositor Desafiador (TOD)?

O Transtorno Opositor Desafiador ( TOD) é caracterizado por um padrão persistente de comportamento , desafiador, desobediente e hostil em relação à figuras de autoridade. As crianças com TOD tendem a ser teimosas, argumentativas e propensas a explosões de raiva.

Esses comportamentos ocorrem com mais frequência em relação aos adultos ou autoridades, podendo também ser visível nas interações sociais  com outras crianças da escola, do bairro ou do ambiente onde se inserem.  No entanto, é importante distinguir entre birra, que é um comportamento comum na infância, e o TOD, que é mais grave e persistente. A avaliação neuropsicológica realizadas por psicólogos é essencial para diagnosticar transtornos como TOD, TEA, TDAH, TDA, entre outros

Diferenciando Birra de TOD

Enquanto a birra é um comportamento comum na infância e geralmente ocorre em resposta a frustrações ou necessidades não atendidas, o TOD envolve um padrão persistente de comportamento desafiador e desobediente, que vai além do que é considerado normal para a idade da criança. As explosões de raiva de uma criança com TOD são frequentemente desproporcionais à situação e podem ocorrer com frequência.

O tratamento desta condição é multidisciplinar e compõe três abordagens básicas, sendo elas: terapêuticas comportamentais, medicamentosas e escolares, e deve incluir:

  • Psicoterapia comportamental: A terapia comportamental trabalha com a criança e a família para mudar comportamentos negativos e aumentar comportamentos positivos.
  • Terapia individual: Ajuda a criança a lidar com emoções e pensamentos negativos.
  • Terapia familiar: Ajuda a família a lidar com o comportamento da criança e melhorar as relações familiares.
  • Educação e treinamento para pais e professores: Fornece estratégias eficazes para lidar com comportamentos desafiadores em casa e na escola. Deve centrar em mudanças comportamentais na família, na escola, dar bons exemplos, dialogar com a criança, ter paciência nas conversas, explicar o motivo das regras, entre outros aspectos.
  • Medicação: Auxilia no tratamento de boa parte dos pacientes, os medicamentos podem ser prescritos para controlar sintomas de TDAH, ansiedade ou depressão que possam estar contribuindo para o comportamento desafiador.
  • Intervenção e Suporte escolar: Trabalha com a escola para garantir que as necessidades da criança sejam atendidas e o comportamento seja gerenciado de maneira eficaz.

O Papel do Ambiente Escolar

A escola desempenha um papel fundamental no apoio às crianças com TOD, mas, muitas vezes, enfrentam desafios devido à falta de compreensão e sensibilidade por parte dos professores. É essencial que educadores estejam cientes das características do TOD e sejam capazes de diferenciar entre comportamento desafiador e simples indisciplina.

Dicas Pedagógicas para Pais e Professores:

  1. Compreenda o transtorno: Entenda que um comportamento agressivo não é pessoal. É importante compreender as causas subjacentes do TOD, como questões emocionais ou de saúde mental, para lidar com ele de maneira eficaz.
  2. Mantenha uma comunicação clara: Certifique-se de que as expectativas e as regras da classe são claras e consistentes para todos os alunos. Reforce as regras todos os dias.
  3. Fique atento ao comportamento: Mantenha um registro detalhado do comportamento do aluno, incluindo as situações que desencadeiam o comportamento, ou seja, o antes e depois dos comportamentos desafiadores.
  4. Evite confrontos: Se possível, evite confrontos diretos com o aluno, pois isso pode agravar a situação. Em vez disso, procure manter a calma e usar técnicas de resolução pacífica de conflitos.
  5. Ofereça reforços positivos a bons comportamentos: Estabeleça uma recompensa para comportamentos positivos e elogie o aluno quando ele pratica atitudes e comportamentos desejáveis.
  6. Envolva os pais: Mantenha os pais informados sobre o comportamento do aluno, porém oriente-os da maneira adequada para que eles tenham atitudes firmes sem perder o afeto e a paciência, evitando castigos físicos e, assim, trabalhem juntos para encontrar caminhos pacíficos para os conflitos.
  7. Busque ajuda: Se o professor sentir que precisa de ajuda para lidar com um aluno com TOD, não deve hesitar em procurar outros colegas professores, coordenação pedagógica, administração escolar e, principalmente, os profissionais da saúde mental.
  8. Busque sempre focar em comportamentos positivos em vez de punir comportamentos negativos: Faz-se necessário ter uma leitura complexa da criança focando também nas suas qualidades buscando desenvolver mais suas características positivas.
  9. Proporcione oportunidades para a criança participar ativamente e sentir-se bem-sucedida.
  10. Fornecer tempo e espaço acolhedor alternativo para a criança se acalmar se necessário.
  11. Ser flexível e adaptar as estratégias de gerenciamento de comportamento às necessidades individuais da criança.
  12. Oferecer escolhas e diferentes opções para a criança participar da atividade de acordo com a forma como esta se sentir segura e confortável.
  13. Proporcionar desafios possíveis de serem realizados pela criança.
  14. Buscar ofertar jogos, interações e atividades que minimizem competição e aumentem a cooperação e colaboração entre o grupo.
  15. Evitar criticar na presença de outras crianças, evitando assim constrangimento e sofrimento por parte deste educando que, muitas vezes, não consegue controlar a impulsividade.
  16. Importante evitar fazer queixas do aluno aos pais em contextos inapropriados, como horários de saída de aula, ao invés disto, buscar uma reunião para uma conversa e orientação, pois os pais também precisam se sentir acolhidos e serem orientados para que não prejudiquem seu filho com atitudes inapropriadas como agressões verbais ou físicas, orientar que uma educação de valor deve ter regras e limites, porém nunca devem ultrapassar a humanidade e o bom senso para não revoltar ainda mais estas crianças.

Entendo que para além das dicas, necessitamos elencar alguns exemplos práticos ligados aos contextos educativos neste sentido listamos abaixo:

  • Solicitar à criança que ajude na distribuição de materiais para os colegas, apagar a lousa, pedir carinhosamente para que ele fique perto da professora dando suporte, ao mesmo tempo em que este possa sentir-se útil, prestativo e com empoderamento positivo, assim eventuais estigmas criados entre os colegas podem ser sanados em sala de aula.
  • Buscar dar destaque às regras sempre mostrando escrita na lousa, com ilustrações para crianças pequenas.
  • Atividades criativas como dramatizações, pinturas e colagem relacionadas ao conteúdo estudado, proporcionam liberdade de expressão, e o educando com TOD poderá sentir-se confortável, expressando-se livremente dentro de um tema dirigido.
  • Os jogos cooperativos podem auxiliar, entretanto faz-se necessário ao educador observar que a criança /educando com TOD formem pares ou grupos com colegas de maior afinidade, neste caso, o professor pode interferir e mediar para que as parcerias aconteçam da melhor maneira possível.

Vale lembrar que cada caso é único e a empatia do educador faz toda a diferença para a melhor atuação em sala de aula.

O TDAH e o TOD Associados

É importante notar que, muitas vezes, o TOD está associado ao Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). As crianças com ambos os transtornos podem apresentar desafios adicionais devido à impulsividade e falta de atenção. Portanto, abordagens integradas que levem em consideração ambas as condições são essenciais para fornecer o suporte adequado.

Enfrentar o Transtorno Opositor Desafiador na primeira infância pode ser uma jornada desafiadora, mas, com compreensão, empatia e apoio adequado, podemos ajudar essas crianças a alcançar seu pleno potencial. Destaco a importância de se criar ambientes escolares inclusivos e acolhedores, onde todas as crianças, independentemente de seus desafios, possam desenvolver ao máximo suas potencialidades.

LEIA MAIS SOBRE EDUCAÇÃO ESPECIAL E INCLUSÃO NA COLUNA DE KEYLA FERRARI, AQUI NESTE LINK.

*Texto escrito por Keyla Ferrari, colunista do Portal Primeira Educação*

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Sobre Educadora dedicada e especializada em inclusão e educação especial. Com graduação em Pedagogia e diversas especializações, incluindo Deficiência da Audiocomunicação e Atividade Motora Adaptada, possui mestrado e doutorado em Atividade Física, Adaptação e Saúde. É docente universitária e formadora de professores, além de palestrante e autora de livros infantis sobre inclusão. Fundadora da Cia de Dança Humaniza, sua expertise abrange temas como educação inclusiva, LIBRAS e alfabetização de surdos.
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